Anunciado na
última sexta-feira (14) como secretário de Urbanismo e Transportes da
prefeitura de Salvador, José Carlos Aleluia relata à Tribuna quais são suas
expectativa para os primeiros momentos à frente da pasta, falando, inclusive,
sobre medidas pouco populares envolvendo ambulantes que devem ser tomadas em
parceria com a Secretaria de Ordem Pública para ordenar o trânsito na capital
baiana.
Apostando na renovação da administração, Aleluia, que entrega a
presidência do DEM-BA nos próximos dias, assegura que a prefeitura será formada
por perfis técnicos e revela uma dificuldade: formar uma equipe para gerenciar
pessoas. “É muito mais fácil você dar todo o suporte na área técnica, seja na
área de desenvolvimento urbano, seja de transporte ou trânsito. O mais difícil
é você encontrar alguém com capacidade gerencial”. Para Aleluia, tem que haver
uma harmonia, a busca por um conceito de desenvolvimento metropolitano, “que no
Brasil não pegou, mas que precisa pegar”.
Segundo o democrata, o primeiro desafio do prefeito ACM Neto
será mostrar que existe uma administração nova, que existem novos valores na
prefeitura em relação a valores que vão ditar a relação com a comunidade. E
nessa conta, a iniciativa privada será chamada a participar. “Quem for fazer
investimentos de vulto na cidade vai ter que sentar com a prefeitura para fazer
investimentos de vulto no sistema viário”.
Questionado sobre o assunto, o novo secretário defendeu o metrô
de seis quilômetros e disse que o bilhete único deverá envolver os moradores de
Lauro Freitas e de toda a Região Metropolitana. Além disso, conheça também a
perspectiva do democrata para o relacionamento com os governos federal e
estadual, que deve ser de harmonia, segundo ele.
Tribuna – Como
está o processo de transição do governo? Está tudo pronto para começar a gestão
do Democratas em 1º de janeiro?
José Carlos
Aleluia – Nós estamos
trabalhando. O prefeito foi muito feliz em colocar o ex-governador Paulo Souto
como coordenador da transição. Paulo Souto é um homem extremamente organizado,
profundo conhecedor do serviço público e conseguiu formar uma equipe que está
levantando as posições dos diversos órgãos da prefeitura para que nós possamos
ainda neste fim de ano – faltam poucos dias para acabar o ano –, nos preparar
para dar uma partida para mostrar que existe uma administração nova a partir de
1º de janeiro.
Tribuna – Na
visão do senhor, quais são os principais desafios do prefeito eleito ACM Neto?
Aleluia – O primeiro deles é mostrar que existe uma administração nova,
que existem novos valores na prefeitura em relação a valores que vão ditar a
relação com a comunidade. Uma prefeitura que vai entender a sua posição de
administradora da cidade. Não só administrar o dia a dia, mas, de forma
evidentemente participativa, pensar o futuro da cidade. O futuro prefeito
certamente vai fazer uma administração voltada para o dia a dia, mas também
muito voltada para o futuro. E o futuro significa pensar Salvador em 2030,
2040, que são coisas que aparentemente beiram a ficção, mas as experiências que
eu tive no passado em pensar o futuro ainda hoje são muito gratificantes. Eu me
recordo quando na década de 1980 pensava Salvador, em termos de energia
elétrica naquela época, no século XXI. E hoje quando eu passo, vejo obras sendo
feitas, imagino que aquelas obras foram pensadas, foram planejadas, os terrenos
foram comprados – agora mesmo vai ser inaugurada uma estação da Coelba ali
próximo ao Shopping Paralela, que o terreno foi comprado no começo dos anos
1980, fim dos anos 70. Havia uma tendência para que a cidade se expandisse para
aquela área quando nós chegamos na diretoria dizendo que tinha a necessidade de
fazer uma subestação ali, em 1980, todo mundo achava que nós estávamos lendo
bastante livros de ficção. E a realidade está chegando, a cidade realmente está
crescendo, está se adensando – na minha opinião precisa se adensar mais em
questão de facilitar o empreendimento imobiliário. Às vezes as pessoas pensam
que criar obstáculos para investimento imobiliário é positivo. Não, não é
positivo. Se você cria obstáculo para o empreendimento imobiliário, se você
encarece o empreendimento imobiliário, você distancia as pessoas do seu
apartamento, do seu sonho de casa. Algumas cidades do mundo têm errado muito na
questão das limitações de construção. Quando você limita demais, você de certa
forma satisfaz o egoísmo de quem está instalado, mas coloca para as franjas da
cidade, para os subúrbios cada vez mais distantes, pessoas que gostariam de morar
em outro lugar. É necessário entender a cidade como um todo, dar independência
aos seus bairros. É uma tendência moderna também que as pessoas possam resolver
as suas coisas onde moram. Você imaginar que todas as coisas dos residentes de
Cajazeiras têm que ser resolvidas vindo ao centro da cidade, ao centro antigo,
é um erro. Deveremos resolver quase tudo lá, é uma tendência moderna, para que
ele resolva algumas coisas andando, e tudo seja mais fácil. Porque tudo na vida
das pessoas – e a cidade é gente, não é prédio, não é rua, é gente – se resume
em como ocupar o dia. Se você tem um dia, onde você gasta quatro horas no
deslocamento e o deslocamento não é prazeroso, você tem quatro horas de
tormenta. Quatro horas que poderiam ser do trabalho ou, muito mais importante
ainda, do lazer da família. Esse é um desafio, e o prefeito está muito
consciente disso.
Tribuna – A
reforma administrativa aprovada pela Câmara de Vereadores formatou um conceito
diferente para a gestão da cidade. Na visão do senhor, qual o perfil da próxima
administração municipal?
Aleluia – Um perfil técnico, onde o prefeito escolheu pessoas que têm
vinculações partidárias, como eu por exemplo, mas não escolheu porque o partido
pediu. O prefeito não tinha nenhuma necessidade de escolher ninguém do
Democratas e escolheu a mim. Ele não tinha obrigação de escolher nenhum dos
escolhidos, que têm condições de preencher os cargos.
Tribuna – Há
pouco o senhor falava de uma visão desenvolvimentista para a cidade. Tudo o que
se tenta fazer aqui se esbarra ou na insegurança jurídica ou em alguns órgãos
que criam sempre obstáculos. O prefeito eleito está preparado e o senhor também
pensa da mesma forma que é importante lutar para criar alternativas reais para
a cidade, mesmo que isso venha a contrariar um probleminha aqui ou outro ali?
Aleluia – Nós temos que criar o aparato jurídico para resolver esse
problema. Nós temos que ter o que for necessário, vamos ter que aprovar leis e
a Câmara dos Vereadores certamente vai entender isso. O que você está levantando
é um dilema das cidades grandes. Você vê ao longo do século XX, as cidades
grandes, muitas delas foram estranguladas porque havia sempre movimentos que
impediam a renovação da cidade. Uma coisa é você preservar o que é patrimônio
histórico. Outra coisa é você preservar o que é importante para o ecossistema.
Outra coisa é você ter uma visão meramente romântica do que é o ambiente
urbano. O ambiente urbano é um ambiente ecologicamente correto, porque é muito
mais favorável ao meio ambiente você usar o espaço urbano para as pessoas
morarem do que fazer um o discurso de uma vida toda ela sustentada em quatro
rodas. O que eu defendo é uma cidade andável, o que não significa que você pode
andar a cidade toda. Mas uma cidade onde as pessoas se desloquem, grande parte
das suas coisas – e existe uma literatura farta, pois a maior parte da
literatura sobre urbanismo publicada no passado vem toda nessa direção, das
cidades andáveis – e as cidades antigas e grandes que seguiram no caminho da
modernização terminaram cidades andáveis. Só no Brasil, você tem o Rio de
Janeiro, com bairros como a Tijuca, como Ipanema, Leblon, Copacabana e até
bairros na Zona Norte, que são bairros andáveis onde as pessoas vivem nos
bairros. As pessoas vão às compras no bairro, vão ao médico no bairro, tem tudo
lá, shoppings, clube e eventualmente se deslocam para ir à praia ou para ir a
algum evento esportivo, cultural. Ou até para o trabalho. Mas não precisa
deslocar toda a massa urbana todo dia. Eu acho que esse tema é importante, é
entender a modernidade ambiental. Um prefeito em Londres, tido como um
ambientalista ferrenho, foi o homem que terminou, por ser ambientalista,
entendendo que Londres tinha que mudar a filosofia. E permitindo uma ocupação
maior de Londres. Nova York da mesma forma, quando você conseguiu se libertar
da ideia de que tudo era histórico. Se tudo é histórico é como se você tivesse
um guarda-roupa e todas as suas roupas fossem históricas. Ou seja, você jamais
poderá usar uma roupa nova porque a roupa velha está ali, sempre ocupando
espaço. Então para se usar uma roupa nova, tem que mudar a roupa velha. São
Paulo está fazendo isso agora muito. Curitiba tem feito isso muito. Belo
Horizonte tem se modernizado.
Tribuna – E como
isso vai acontecer em Salvador?
Aleluia – A primeira coisa que você tem que fazer quando
você quer mudar alguma coisa é procurar enxergar o futuro, que cidade eu quero.
Então eu vou tentar, conversando com arquitetos e urbanistas, isso é uma coisa
multidisciplinar, vou tentar construir um cenário da Salvador do futuro. Por
isso que o prefeito colocou transporte junto de urbanismo. Porque esse cenário
tem que ser o cenário da vida das pessoas, e como gente se desloca precisando
de transportes, você tem que fazer o planejamento urbano caminhar ao lado de
transportes. Não é só fazer avenidas, avenidas, avenidas... É um plano de
habitação, de vida, de qualidade de vida. Tendo uma boa visão de planejamento,
você tem uma visão do que fazer no curto prazo. Eu diria que, no curtíssimo
prazo, o mais importante é o operacional. Isso vale para todas as áreas da
prefeitura. Você não constrói nada no espaço de tempo zero. Ou seja, um mês,
dois meses, três meses você não constrói nada. Você tem é que operar a cidade,
operar no sentido que a prefeitura é a responsável pelaoperação. Fui para o evento em que o prefeito apresentou o nome
dos secretários e fui pela Avenida Sete. Foi difícil pelo seguinte: a Avenida
Sete não é uma avenida estreita, mas é uma avenida obstruída, onde os carros
estão parados nos dois lados, em alguns lugares proibidos, as pessoas que
querem parar, elas param para saltar na terceira faixa e as pessoas não usam o
passeio porque está ocupado, então as pessoas têm que usar a rua. Então é
evidente que isso faz com que o trânsito ande muito lento. E alguns secretários
terminaram chegando tarde. Você pergunta: há necessidade em fazer um grande
investimento naquele circuito da Praça da Sé, da Rua Chile, da Avenida Sete?
Não, não há necessidade de grande investimento. Há a necessidade de ordenar a cidade,
ordem no sentido de que as pessoas possam andar tranqüilamente, revitalizar o
comércio. É um equívoco achar que o funcionário da loja ou o dono da loja
chegar de manhã estacionar o carro na porta da sua loja, ocupar o espaço, ele
vai melhorar o desempenho do comércio dele. Pelo contrário, ele vai matar o
comércio dele. As pessoas não vão lá porque está desorganizado. Para melhorar o
comércio, você organiza. As pessoas vão continuar indo lá como vão no shopping.
Portanto é uma questão de tranquilidade. As pessoas reclamam: “Ah, mas não tem
onde estacionar”. É um problema que se resolve. As pessoas quando saem de casa
têm obrigação de pensar aonde vão deixar o carro. Elas sabem aonde vão. Se
alguém chegar numa grande cidade do mundo e alugar um carro, vai pagar o hotel
do carro. Não vai ter outro jeito. Porque o veículo individual é uma coisa
maravilhosa, todo mundo adora, eu gosto, mas, ele tem que entender, que aquele
é o lugar onde outros vão circular.
Tribuna – O
senhor vai assumir a Secretaria de Urbanismo e Transportes. Como o senhor
pretende tocar a pasta, qual será o ritmo que pretende empreender?
Aleluia – O primeiro grande problema é
formar a equipe. Eu estou procurando pessoas com capacidade gerencial, eu acho
que o problema é gerencial. É muito mais fácil você dar todo o suporte na área
técnica, seja na área de desenvolvimento urbano, seja de transporte ou
trânsito. O mais difícil é você encontrar alguém com capacidade gerencial. Para
formar a equipe, para motivar a equipe, os poucos contatos que eu tive com a
equipe da administração municipal, eu diria que, se alguém me perguntasse, qual
o legado que você gostaria de deixar e que eu deixei nos lugares onde passei:
uma equipe motivada. Orgulhosa de servir ao público. Onde os funcionários pudessem
chegar em casa e dizer à mulher, aos filhos, ao sogro, à sogra, ao cunhado, no
fim de semana: eu tenho orgulho de trabalhar na prefeitura de Salvador.
Tribuna – Qual o
maior desafio e já tem em mente o que fará para destravar o complicado trânsito
da cidade?
Aleluia – Eu não sei se vou conseguir
destravar, mas certamente vai aumentar a velocidade de circulação. Em simples
operação, operação correta do trânsito. Eu sou engenheiro eletricista, em
eletricidade as coisas acontecem diferente do trânsito. Em eletricidade quando
você sobrecarrega um condutor, ele sobreaquece, engarrafa a transmissão de
energia e pode chega a partir. Então eu sei muito bem o que é a gravidade do
que é uma sobrecarga. E tem que evitar a sobrecarga. E você evita a sobrecarga
muitas vezes com soluções meramente operacionais. Algumas vezes com soluções de
intervenção, de fazer um novo circuito de operação, e isso vai ser feito, mas
no tempo. De imediato nós não faremos nada, mas nós vamos chamar a iniciativa
privada para trabalhar conosco.
Tribuna – De que
forma?
Aleluia – Quem for fazer investimentos de
vulto na cidade vai ter que sentar com a prefeitura para fazer investimentos de
vulto no sistema viário. Porque senão não adianta fazer um investimento grande,
um edifício, um grande shopping qualquer, grande empreendimento qualquer se
aquele empreendimento não se inserir bem no circuito da cidade. Ele vai parecer
um corpo estranho na cidade. Vai piorar a vida da cidade. Acho que tudo isso
tem que resolver, não pode deixar que as pessoas façam investimento de forma
desordenada.
Tribuna – Durante
a campanha, os nervos ficaram à flor da pele, mas, passada a campanha, o
palanque foi desarmado e o prefeito inclusive já esteve com a presidente Dilma
[Rousseff]. O senhor passou tanto tempo em Brasília e conhece a fundo o poder,
qual a sua expectativa? Ela vai ser realmente uma parceira da cidade ou ela vai
adotar uma postura ‘aos amigos tudo e aos inimigos a lei’, o que for legado da
cidade ela libera, o que não for, vai ter que lutar?
Aleluia – Eu sou otimista com relação a esse trabalho conjunto do
governo municipal com o governo federal e com o governo estadual. Não é por
outro motivo que o prefeito escolheu ir à presidente em companhia do
governador. E a presidente sabe que para a preservação da sua boa imagem,
confirmada em pesquisa nacional e que se confirma também em Salvador, e, para a
própria visão do governo do estado, é importante que haja um trabalho conjunto.
Não adianta continuar no palanque. O prefeito já desceu do palanque, o governador
desceu no primeiro dia, tenho que reconhecer isso. O governador, logo que saiu
o resultado das urnas, disse que queria trabalhar em conjunto e assim tem sido.
Eu já tive reuniões com várias pessoas do governo, discutindo assuntos
relevantes da cidade, para a região metropolitana, e acho que o caminho é esse.
Nem sempre se chega a um acordo, mas o princípio é o de buscar o entendimento
com o objetivo comum que é servir ao cidadão. Que deu uma ordem para os dois. O
mesmo cidadão que elegeu Neto elegeu Wagner [Jaques Wagner] e elegeu Dilma. Ele
ordenou que todos se entendessem. E é essa a obrigação que nós temos.
Tribuna – A gente
estava falando da questão do transporte e muitos especialistas apontam a
necessidade de priorizar o transporte de massa, o transporte público. Como o
senhor pretende lidar com o sucateamento dos ônibus, a inexistência do metrô,
como o senhor vai lidar com essa situação, da falta de serviço público de
qualidade na área de mobilidade?
Aleluia – O metrô nós temos em condição de operar. Estamos conversando
com o governo do estado e o governo tem interesse em ter sob sua administração
tanto o metrô atual quanto o metrô novo que eles planejaram para a Avenida
Paralela. E nós não temos nenhum obstáculo. Apenas entendemos que vamos trabalhar
nesse sentido que o sistema de ônibus também tem que se modernizar. O sistema
de ônibus também tem que responder à modernização. E para isso nós temos que
fazer o quê? Nós temos que fazer o concurso. Os contratos com as empresas de
ônibus são precários e quem tem contrato precário faz investimentos precários.
Nós vamos exigir – e certamente eles terão o maior interesse em fazer isso –
que haja uma competição, haja uma reorganização. Nós vamos sentar para fazer
isso. Não é razoável trabalhar com o número de empresas sem nenhum comando da
prefeitura. É ruim para as próprias empresas que em algumas horas, em algumas
avenidas importantes,tem toda a faixa reservada para ônibus, uma verdadeira
fila de ônibus. Eu já cheguei a contar 40 ônibus, um enfileirado ao outro,
esperando para parar no ponto. Nós temos que encontrar solução. O Brasil tem
experiência muito boa nisso. Belo Horizonte avançou muito, Curitiba é
referência no mundo e São Paulo também avançou. Claro que São Paulo avançou
mais com o metrô e Salvador tem a promessa de um metrô de grande pressão na
Paralela. Eu sou daqueles que, mesmo antes de ser mencionada a possibilidade de
eu ser secretário de Transportes, eu sempre disse que o metrô de seis
quilômetros é extremamente importante, desde que se entenda que ninguém compra
passagem de metrô de seis quilômetros. Mas também compra passagem de metrô nas
cidades modernas. As pessoas compram passagem de transporte. Elas querem tomar
o ônibus e soltar em Paripe sem pagar duas vezes. Foi esse o tema de campanha.
O prefeito ganhou dizendo que ia trabalhar no bilhete único e nós vamos
trabalhar no bilhete único. Em São Paulo as pessoas tomam vários transportes.
Em média, em São Paulo, cada passagem que é vendida a pessoa usa 1,6 viagens.
Não chega a duas viagens. É normal isso. O que não pode é o indivíduo que mora,
por exemplo, na Caixa D’Água ter que andar até o Largo do Tamarineiro porque
ele tem que pegar um ônibus que vai passar na Antônio Carlos Magalhães. Para
ele pegar um ônibus da Caixa D’Água no Largo do Tamarineiro e saltar, ele paga
outra passagem. Isso é irracional. Nós vamos chamar os donos de ônibus. Nós não
queremos impedir, eu sou um homem que entendo a necessidade das empresas serem
eficientes, serem lucrativas para reinvestir no negócio e tirar os seus lucros.
Agora, é necessário ter um comando, que tem que ser da prefeitura.
Tribuna – O
prefeito ACM Neto sinalizou que iria fazer a licitação dos ônibus e que iria
exigir a contrapartida dos empresários justamente para fazer intervenções em
viadutos, em corredores de ônibus. Em quanto tempo o senhor acredita que seja
possível sentir, pelo menos, um alívio no trânsito e uma melhoria no serviço de
transporte público?
Aleluia – Espero que o alívio venha num curto espaço de
tempo. Nos primeiros três meses eu espero que haja isso. A mudança vai exigir a
concorrência e nós vamos fazer, que depende do entendimento que nós vamos ter
com o estado. Nós vamos ter que ter um trabalho articulado com o estado. Não é
razoável que exista essa descoordenação que existe hoje entre os transportes de
Lauro de Freitas e os transportes de Salvador. O prefeito não falou isso porque está fora da área
dele, mas é razoável que se imagine que o bilhete único envolva também o
cidadão de Lauro de Freitas, que o bilhete único venha também envolver o
cidadão de Simões Filho e envolver todo cidadão da Região Metropolitana de
Salvador. Isso exige apenas boa vontade e determinação. A determinação o
prefeito já deu.
Tribuna – Tem
alguma área que o senhor tocará como prioridade na questão do trânsito, da
fluidez da cidade? Na primeira semana, o senhor sentado na cadeira, qual o seu
foco para o mês de janeiro à frente da pasta?
Aleluia – Deixar as ruas para os carros
circularem. As ruas são para carros circularem, para os veículos circularem,
preferencialmente para os ônibus circularem, não necessariamente criando
dificuldades para os outros veículos. Rua não é para outra finalidade que não
seja circular o transporte. E os passeios para os pedestres, isso é importante.
Passeio não é para carro.
Tribuna – E o que
fazer diante da constatação de que Salvador não tem estacionamento suficiente,
inclusive nas ruas...
Aleluia – Eu sou muito pragmático. Se não tem estacionamento num
determinado lugar, não vai de carro. Essa é a solução. A prefeitura não vai
criar estacionamento. Estacionamento é um problema do dono do carro com o dono
do estacionamento. Se a prefeitura desejar criar estacionamento, ela não vai
ter dinheiro para isso. Não tem dinheiro para construir estacionamento, até
porque eu não sei explorar. Hoje, estacionamentos são negócios. Certamente
aparecerão pessoas interessadas nisso. Você vai em qualquer cidade grande do
mundo, você não encontra estacionamento na rua. Nas cidades médias, de um modo
geral, o indivíduo pode estacionar na sua porta e tem que tirar licença.
Estaciona na porta quem é morador. Eu fui visitar a minha filha que estava
morando em Boston (EUA) e ela me disse que não podia botar o carro na porta
porque ainda não tinha se inscrito na prefeitura. “Eu estou esperando e semana
que vem eu vou me inscrever e a placa do carro e vou poder colocar na minha
porta”. Isso é muito normal, mesmo numa rua sem movimento. Carro não é para
ficar na rua. Eu não sou contra carro, mas não tem que ficar na rua. Pode ficar
na rua? Pode no estacionamento rotativo, no estacionamento numa área que não
afete a vida dos outros. Há um conceito que é o conceito de terminalidade. Eu
não posso, eu não tenho o direito de, por exemplo, usando uma linguagem que as
pessoas entendem, acender uma fogueira na porta da minha casa com pneu. Porque
eu vou poluir o ambiente, o piso. Vou fazer uma série de coisas que podem até
parecer prazerosas para o incendiário, mas assolam a vizinhança. Essas
penalidades têm que ser levadas em conta.
Tribuna – Dentro
dessa linha, uma coisa chama atenção. Não vai ser da sua área, mas
indiretamente sim. Como é que vai lidar com a ocupação dos passeios pelos
ambulantes? Isso também interfere no trânsito.
Aleluia – Vamos ter que ordenar. Essa é uma
questão da secretaria que foi indicada. Evidente que isso não afeta
necessariamente o trânsito. Alguns casos o ambulante fica entre o passeio e a
rua, nesses casos afetam o trânsito e nós vamos ter que regulamentar, em
articulação com a Secretaria de Ordem Pública, mas é claro que, no momento em
que você tem uma calçada que está inteiramente tomada pelo comércio, e não só
pelo comércio informal, é pelo comércio formal – se você andar pela cidade você
percebe que em alguns casos o dono da loja para se proteger ou não termina
também instalando a sua loja no passeio. Para ele é muito melhor ele instalar a
sua loja no passeio do que deixar um terceiro. Essas coisas todas com diálogo.
Preservando, evidentemente, que se cause para os ambulantes que precisam
sobreviver, mas que precisam ser ordenados, e a secretaria vai tratar disso.
Tribuna – Há
alguma possibilidade da cidade ser pensada por cima? O fluxo da cidade ser
pensada de uma forma macro e não isolada, como, por exemplo, a Pituba, a Paulo
VI. Existe a necessidade de transformar aquilo numa via única, além dos postos
da orla?
Aleluia – Você tem programas de computador hoje, digitais, para simular
fluxo de carros na cidade. A cidade e o bairro não podem ser tratados de forma
isolada, até porque o bairro não é isolado, está interconectado. E é preciso
fazer simulações e para isso nós vamos usar especialistas, se puder usar as
universidades, isso é muito bom, e a partir das simulações fazer intervenções.
Tribuna – O
senhor acredita que o prefeito ACM Neto conseguirá construir uma maioria folgada
na Câmara que lhe dê possibilidade de aprovar projetos importantes e até
medidas mais duras nesse começo de governo?
Aleluia – Eu acredito que sim, o prefeito vai construir uma maioria,
sobretudo porque ele vai refletir muito sobre os projetos que vai apresentar e
os vereadores sabem muito bem que a sociedade está acompanhando o seu trabalho.
O mais importante que pode existir é transparência. Que as pessoas possam
acompanhar o trabalho da Câmara. Que o vereador tenha que explicar quando ele
votar contra alguma coisa.
Tribuna –
Projetos polêmicos que foram votados essa semana, como o PDDU, a Lei de
Ordenamento do Uso e da Ocupação do Solo (Louos), como o Aeroclube. Como o
senhor avalia polêmicas como essas? Serão danosos para a cidade esses projetos?
Aleluia – Eu não tenho nenhuma informação de nada desastroso. Eu li o
PDDU, nós poderíamos até avançar um pouco mais, talvez tenha que avançar mais
no futuro. A questão, por exemplo, do Aeroclube tem que ter solução, acho que
ninguém faz investimento assim. Todo mundo sabe que o Aeroclube é um projeto
que se inviabilizou. Então para fazer um novo investimento lá, teria que fazer
um novo projeto, que foi o que a Câmara de Vereadores fez corretamente e espero
que funcione.
Tribuna – O que a
cidade pode esperar de José Carlos Aleluia à frente da Secretaria de Urbanismo
e Transportes, já que estará à frente de um dos maiores gargalos da cidade?
Aleluia – Vou ter muita determinação, muita
disposição para enfrentar o desafio, que é um desafio da sociedade. Eu sou apenas
um condutor disso. Vou ter apoio do prefeito e espero ter o apoio da grande
maioria dos vereadores e ter o apoio da sociedade. Eu vou estar com as minhas
portas abertas, com as minhas redes sociais disponíveis, meus ouvidos atentos
para todas as sugestões que podem ser apresentadas. Agora meu maior problema é,
hoje, formar a equipe.
Tribuna – E os
bairros, vão ser tratados de que forma nessa questão da mobilidade urbana?
Aleluia – Sobretudo os bairros não podem
ficar isolados, como Cajazeiras é hoje. Cajazeiras é um caso específico de como
um bairro fica isolado. Eu estive em Pernambués na semana passada. O acesso a
Pernambués é apertado, mas não dá para ter carro estacionado de um lado e carro
estacionado do outro. Simplesmente é o mesmo problema. As ruas não são em
nenhum lugar do mundo capazes de suportar estacionamentos e trânsito. Você tem
que escolher se o carro vai trafegar ou se vai estacionar. Ou seja, você tem a
necessidade de se ordenar. Simples. Você vê que o problema é simples. É uma
questão de educação. As pessoas têm que se reeducar.
Tribuna – E como
criar essa possibilidade para a população de estacionar os seus carros se hoje
não há esse espaço disponível?
Aleluia – As pessoas têm que entender que, se não há espaço disponível,
não levem os seus carros. Pode ter o carro, mas não pode levar o carro para
onde não tem espaço para estacionar disponível. Você não pode estacionar ao
longo da Paralela num dia de domingo porque não deixa os outros transitarem.
“Ah, porque não tem espaço”. Tem que achar um lugar. Talvez um lugar mais
distante. As pessoas talvez não querem andar. Muitas vezes o comerciante quer
colocar o carro na porta da loja dele. Se fosse num lugar que não fosse na
avenida, será que não seria melhor um estacionamento rotativo? Onde o cliente
estacionasse, pagasse um pequeno valor simbólico para a prefeitura e saísse
depois? São coisas que devem ser administradas.
Tribuna – Qual a
sua opinião sobre a Linha Viva?
Aleluia – É um projeto que me agrada muito e
eu sempre imaginei isso. Em Brasília eu discuti muitos projetos usando as
faixas de servidão. Eu fui presidente da Chesf e diretor da Coelba, as duas têm
faixas nessa área. E sempre foi um problema, tanto pra Chesf quanto para a
Coelba, você manter a faixa de servidão desocupada. Muita coisa foi invadida,
mas muita coisa ainda está desocupada. Eu acredito que boa harmonia entre uma
via pública e as linhas de transmissão pode ser muito bom para a prefeitura,
para as pessoas que vão se mover, uma nova via de desenvolvimento da cidade. E,
para as empresas de eletricidade, diminui o trabalho de fiscalização. As
empresas mantêm um batalhão para fiscalizar as faixas para que não sejam
invadidas. Um bando de advogados, um bando de fiscais para fazer isso. Tem que
se pensar inclusive em Lauro de Freitas. Porque muitas vezes os engarrafamentos
são exportados de uma cidade para outra. Hoje é muito comum de você chegar no
aeroporto e muito antes de poder acessar o aeroporto já ter engarrafamento
porque o acesso a Lauro de Freitas está estrangulado. Tem que haver toda uma
harmonia, um conceito metropolitano, que no Brasil não pegou, mas que precisa
pegar.
Colaboraram: Fernanda Chagas e
Fernando Duarte